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Notícias

02 de Fevereiro de 2016

"Tenho esperança de que esse momento vai modificar o País"

Defensor incondicional das tecnologias de gestão como instrumento para atingir níveis de excelência em competitividade, o empresário efundador e presidente do Conselho Superior do Movimento Brasil Competitivo (MBC), Jorge Gerdau Johannpeter, não vê outra saída para o poder público no país com vistas a superar nossas dificuldades.

Gerdau conversou com a Revista da FIEC no hotel Gran Marquise, momentos antes de participar da solenidade de assinatura do acordo de cooperação no âmbito do Programa Modernizando a Gestão Publica (PMGP), entre o MBC e o governo do Estado do Ceará, com o apoio da FIEC.

A parceria permitirá o desenvolvimento do planejamento estratégico e plano de concessões de ativos do governo do Ceará. O PMGP é uma iniciativa do MBC com o objetivo de criar uma nova cultura administrativa de governança e gestão para promover o desenvolvimento sustentável, melhorias sociais e econômicas, já tendo sido desenvolvido em 14 Estados, 13 municípios e sete ministérios.

Na entrevista, porém, Gerdau não se furtou a falar somente sobre gestão e competitividade. Diante o momento que o país atravessa, afirmou que a disputa política está atrasando o desenvolvimento do Brasil, ressaltando nunca ter visto situação semelhante em nosso país, apesar de ter vivenciado várias outras crises.

De acordo com Gerdau, o marco zero da superação da crise na qual estamos mergulhados é o ajuste fiscal. Para ele, enquanto não concluirmos esse processo, não daremos início a virada na economia. O reflexo disso, ressalta, é a onda de pessimismo que tem tomado conta da economia com reflexos em toda a sociedade.  

Revista da FIEC - O Brasil atravessa um momento difícil na economia com reflexos na autoestima da sociedade. Em que sentido o senhor acha que esse cenário impacta no debate sobre competitividade no país? 

Jorge Gerdau - Os temas hoje, dentro do cenário tanto brasileiro como internacional, se integram de certo modo. Então, quando se fala em termos de competitividade, se inserem os aspectos intra e extramuros da empresa. Esse é um ponto. O segundo ponto importante, e aqui falo em termos de abrangência, é o apoio à gestão e eficiência do setor público. Isso desde o ano 2000, quando começamos a trabalhar com intensidade e passamos por vários governos na tentativa de avançar em alguns processos de gestão, já que 40% do PIB dizem respeito ao setor público. E se você olhar como um todo, é preciso que se tenha padrões de eficiência, tanto no setor privado quanto no público. 

RF - Como o senhor bem afirmou, 40% do PIB dizem respeito ao setor público. Mas o restante, que é a maior parte, cabe ao setor privado. Dito isto, qual é o papel do setor privado, dentro do momento em que o país atravessa, no sentido de fazer avançar esses modelos de gestão que ainda se encontram atrasados?

JG - Essa pergunta é tremendamente abrangente. Quando nós analisamos o cenário e a relação do setor privado com o governo, no sentido de como colaborar, como contribuir nesse processo, se verificam claramente os problemas de eficiência operacionais que essas empresas têm. Nas áreas de infraestrutura, por exemplo, são preços administrados e há grande interferência da gestão pública. O terceiro ponto nesse cenário entre o setor privado e o poder público são as macroestratégias que o Brasil precisa ter em relação ao mundo. E ai nesse campo é o que achamos mais importante, que é a governança. Porque a partir dai é que se definem os rumos. Essa relação entre a iniciativa privada e os governos é fundamental, porque no que diz respeito as macrodefinições, seja juro, sistema tributário, logística, relações internacionais, nos acordos bilaterais, todos estes temas atingem profundamente a vida empresarial. Nessa relação, digamos assim, há um desafio enorme ainda para que a competitividade no Brasil seja atingida como um todo. Há lacunas a serem preenchidas plenamente dentro desse cenário de globalização que o mundo vive, para que o país possa ter empresas mais competitivas. Na área industrial, que nos diz respeito diretamente, há enorme dificuldade. Há uma parcela intramuros, mas a maior é extramuros, fora da gestão interna da empresa. Nesse campo o desafio enorme é que se atinjam condições isonômicas com o mundo. Por isso que, no fundo, esse tema do MBC é tão abrangente e com tantas frentes, buscando com profundidade e muito cuidado se chegar a patamares de competitividade internacional. 

RF - Nós estamos vivendo no Ceará um momento interessante. Tanto no aspecto da iniciativa privada, que tem sido incentivadora, como do poder público, que tem aceito parceria com a sociedade. Parceria que também implica em corresponsabilidade. O senhor poderia citar experiências semelhantes no Brasil que possam ser referenciadas em termos de resultados?   

JG - Eu diria que dentro de uma visão ampla de desenvolvimento sustentável não se pode mais trabalhar esses setores de forma isolada. Sem que haja construção coletiva com toda a sociedade, tratando as responsabilidades de forma compartilhada. Hoje, nas economias mais evoluídas, essa relação governo x setor privado é cada vez mais vivenciada de maneira integrada, com a maximização de eficiência. O Ceará, já nos últimos anos, tem mostrado uma competência muito interessante. Vocês são de certo modo benchmarking na área de educação básica, coisas desse tipo, que são muito importantes para o desenvolvimento. E não há como resolver problemas sem esse trabalho integrado.

RF - No último Encontro Nacional da Indústria (Enai), ocorrido em Brasília no mês de novembro passado, apesar das queixas dos empresários, o ex-presidente norte-americano, Bill Clinton, foi na contramão da maioria e fez diversos elogios ao nosso país em relação ao contexto mundial. O senhor concorda com ele?

JG - O presidente Clinton deu uma opinião que no fundo, nós empresários, já temos sobre o Brasil, de que somos um país absolutamente único nesse cenário internacional. As nossas condições de sermos um dos melhores, quase eu diria de sermos o melhor do mundo, são indiscutíveis. Nós temos praticamente todos os fatores positivos necessários para que possamos nos desenvolver. O não desenvolvimento do país passa muito mais por uma macrodefinição de propostas, de rumos a longo prazo, que deveriam resultar em definições claras sobre as metas que queremos atingir. O Brasil tem falhado um pouco nessas definições que precisam ser tomadas sobre correções estruturais. Esse processo todo tem, no meu entender, como maior falha, o aspecto da governança. E tem nos faltado um debate maior sobre políticas de longo prazo. Por isso estou extremamente feliz de estar nessa empreitada aqui no Ceará participando desse momento em que a sociedade e o governo debatem soluções de forma conjunta até 2040. Pouquíssimos estados no Brasil estão fazendo isso hoje, oferecendo a possibilidade de termos visão estratégica. Essa possibilidade que nós estamos podendo ter, com muita alegria, de participar desse projeto, dentro desse conceito da colaboração setor público e privado, é extraordinária, extremamente viável em termos de se alcançar resultados. O grande desafio de se combater as desigualdades no Brasil se dá pela não análise correta, ou mais profunda, de quais são os limites de nossa capacidade de investimento. De definir estratégias sobre nossas reais necessidades de combate as questões sociais. Isso traz em todos nós uma inquietação enorme. Esses fatores requerem de nós uma capacidade política e social de conduzir isso com cuidado. O que significa isso? O país tem uma capacidade de geração de riqueza X. Essa capacidade de geração de riqueza tem que ter políticas de poupança e investimento. O montante de índice de poupança e consequentemente o de investimento, dentro de análises do Banco Mundial, se forem números abaixo de 20% do PIB, você só cresce 2% ao ano. Dentro do crescimento demográfico histórico do Brasil, 2% de crescimento era inferior ao crescimento demográfico. Hoje já melhorou, já há percentuais diferentes. Mas de qualquer forma, no que diz respeito a esse princípio básico da relação entre crescimento e o atendimento das necessidades sociais, o que aconteceu no Brasil? Nós tivemos um crescimento grande nos últimos 10 anos, que se deu mais por fatores externos. Pelo alto preço dos commodities e pelo preço do petróleo. Esse cenário se modificou completamente. Mas as nossas políticas de investimento, de poupança, foram acreditando que esse cenário fosse perpétuo. E consequentemente, nossos gastos de investimento, e ainda com o período de preocupação eleitoral, nos fizeram estruturar gastos e despesas desproporcionais a esse cenário. Isso nos levou hoje a um déficit de R$ 120 bilhões, que sabemos ser insustentável. Isso está exigindo um ajuste, mas como estamos demorando; por pressões, ou não apoio político, estamos postergando o balanceamento dos fatores crescimento e atendimento da expectativa social, que precisa ser corrigido. Se você me pergunta sobre as condições para o país, eu não posso me apavorar pelo quadro de hoje, a curto prazo. Se conseguirmos corrigir a questão de hoje e mantivermos a firmeza, criamos uma perspectiva muito boa. Então, quando Clinton fala isso sobre o Brasil ele tem razão. Agora, se você me faz olhar o dia-a-dia, pelo noticiário da imprensa, nós temos desafios complexos, de curto prazo. E o pior de tudo, um cenário que eu ainda não tinha assistido, que é a forte dependência da economia do processo político. Uma coisa absolutamente única que estamos vivendo. Olhe, eu consegui acompanhar, jovem ainda, a revolução de 1964. Nós tivemos as crises com o Geisel, do choque do petróleo, o problema da inflação, que era um terror; e fomos vencendo cada uma dessas dificuldades. Mas nesse momento estamos na dependência de ajustes políticos, e como o ajuste fiscal requer retaguarda política forte, nós não estamos conseguindo vencer esse problema.

RF - A política hoje atrapalha mais o Brasil do que qualquer outra coisa?

JG - A palavra atrapalha é muito forte, porque tudo no fundo redunda de decisões macropolíticas. Mas eu diria que hoje o empacamento, o travamento do processo político, está trancando o país.

RF - O senhor falou sobre o atendimento das necessidades sociais. Nós tivemos nos últimos anos um avanço substancial em vários indicadores, que melhoraram a imagem do país. O senhor não teme que haja retrocessos, já que o governo terá que tomar medidas duras que podem impactar negativamente no atendimento dessas necessidades? E quais as consequências disso, pois esse possível retrocesso não atingirá apenas as camadas mais necessitadas?

JG -  Sim, você tem razão. Atingirá a todos. O Brasil é um só. Eu diria que nós temos problemas nesse sentido, mas como fanático de gestão, tenho convicção absoluta de que o governo usando tecnologias de gestão, tem uma margem de no mínimo 30% de ganho de produtividade. Cito aqui o exemplo de Alagoas. Houve por parte do BNDES um apoio a melhoria de gestão dos hospitais públicos. Eles tinham média de atendimento de 15,6 dias para um paciente sair do hospital. Com alguns meses de trabalho esse prazo caiu para 5,3 dias. Praticamente 300% de melhoria de produtividade, e acabou a fila. A nossa experiência no MBC, nós trabalhamos praticamente em 15 estados, tem mostrado resultados. Há muitas ineficiências pelo sistema burocrático e de outros tipos. Mas se você tomar a demora de qualquer obra pública no Brasil, pode estar certo que estamos pagando custo de 30% a 50% a mais, considerando o custo da demora, o capital parado e o não benefício desse capital empregado ainda. A partir desses números podemos ver que o que Brasil tem de margem de melhoria em termos de gestão é muito grande. É algo como melhorem a gestão, que  podemos manter nossos programas sociais. 

RF - O MBC tem atuado junto ao poder público federal e aos estados. Gostaria que o senhor comentasse alguns desses resultados e se há diferenças muito significativas entre essas esferas de poder no sentido da execução das ações a que se propõe o MBC. 

JG - No caso dos estados é mais fácil em vista da estrutura ser menor. Tudo que é menor é mais fácil. No âmbito estadual os temas principais são mais fáceis de atingir. Se você toma o âmbito federal o trabalho é muito mais complexo. E há outro fator, que é o da corrupção em nível federal. São mais complexos ainda. Mas isso vale também para o mundo privado em termos de estruturas complexas. 

RF - Em termos de exemplos de resultados do trabalho do MBC - o senhor citou os hospitais de Alagoas – que outras experiências poderiam ser replicadas?

JG -  Nós temos um caso relativamente recente na educação em Goiás. O estado estava em 16º lugar no nível de educação médio. Estão em primeiro agora, só por conta da melhoria da gestão. O que fizeram? Reclassificaram os professores através de um sistema de meritocracia. Os diretores continuaram sendo eleitos, mas para que pudessem participar desse processo, os interessados tinham que fazer um curso de capacitação para se submeterem ao exame. Consequentemente, através dessa exigência de qualificação profissional, houve melhoria. Outras ações foram adotadas, como currículo padrão, implantação do contraturno etc. 

RF - No Ceará já se adota um pouco desse modelo.

JG - O Ceará é um exemplo, sim. E como se conseguiu? Através de gestão. Não foi milagre. Foi trabalho. Aconteceu isso em Goiás. Pernambuco introduziu na estrutura constitucional que o planejamento não pode ser mais de quatro anos, mas de longo prazo. Por isso tem que ser trabalhado não só como vontade do governador, mas com a participação da sociedade, como vocês estão fazendo aqui. A comunidade participando se converte em um pacto.

RF - Parece que o senhor se renova a cada iniciativa dessa. Que perspectivas o senhor vislumbra no trabalho do MBC com o Ceará?  

JG - Essa ação do Governo do Estado com a FIEC é extremamente construtiva. Como já temos experiência com outros estados, para se tornar efetiva, é preciso que seja institucionalizada, se torne permanente. Provavelmente se estabelecendo a estrutura de um conselho com a participação da sociedade.

RF - Um tema considerado caro para o setor produtivo é a questão de imposto. A cada dificuldade de gestão pública se apela para o aumento da carga tributária. É possível gerir a coisa pública sem necessitar desse instrumento?

JG - Eu diria que os governos deveriam estudar formas de reduzir impostos. Sem que isso implique em redução da qualidade do serviço. A redução tem que ser pela melhoria da produtividade. E como nós acreditamos na melhoria da gestão e da produtividade, isso pode ser feito. A carga tributária no Brasil está no limite. Se você aumentar mais só vai piorar o quadro atual, porque o retorno do investimento privado é benéfico para toda a sociedade.

RF - O senhor é uma pessoa experiente no mundo dos negócios e disse anteriormente que nunca tinha visto uma dependência tão grande da economia do aspecto político. Prognosticar nunca é um esporte dos mais fáceis. Mas para onde o senhor acha que o Brasil está caminhando em um intervalo de curto prazo?

JG - Eu diria o seguinte: a primeira coisa, que eu considero a data zero, de onde devemos partir. Se nós não fizermos um ajuste fiscal que tenha superávit primário satisfatório, pelo menos para pagar o juro, vamos estar sem condição de dar a virada. Teoricamente o ajuste fiscal deveria ter acontecido nos primeiros três meses de governo. Estamos entrando 2016 sem termos terminado esse ajuste. Enquanto não terminarmos o ajuste fiscal nós não vamos iniciar a retomada.

RF - Invariavelmente voltamos para a questão política...

JG - ...Tudo é política. Você pode não querer vincular, mas a verdade é que a política dá o rumo. O desajuste fiscal foi uma decisão política. Não foi? Se não fizermos o ajuste vamos virar uma Venezuela. Essa é a opção. Só há um caminho que é fazer o ajuste fiscal. E depois do ajuste, ainda vamos ter que esperar um tempo para as coisas se acomodarem. Se você me pergunta quanto tempo leva, eu diria que esses macrofatores são indispensáveis. Mas há um fator decisivo que é a psicologia do pessimismo e do otimismo. Por enquanto, como não se está vendo luz no fim do túnel, a economia vive esse clima de pessimismo. Por isso que tem que surgir um entendimento político no Brasil para que de uma forma ou outra possa haver avanço.

RF - O senhor acredita nessa possibilidade, de haver um entendimento nas condições em que nos encontramos hoje?

JG - Terá que haver. Os políticos estão ai para isso. É o ganha pão deles. Nós estamos um pouco atrapalhados pelas estruturas políticas que possuímos atualmente, mas os políticos são inteligentes. Eles sabem que estão destruindo o país. Isso chega meio devagar em Brasília, mas eles começam a perceber, vendo a queda de arrecadação que está acontecendo. Os indicadores em todos os níveis de governo estão mostrando. Não dá para continuar vivendo assim. Eles vão, em algum momento, chegar a conclusão de que dessa forma não podemos mais permanecer. 

RF - O senhor considera que exemplos como estes que começam a se viabilizar no Ceará podem ajudar nesse despertar?

JG - Acho que sim. Alguns estados já estão fazendo um esforço nesse sentido, porque veem que o que acontece em Brasília está muito distante do chão da realidade brasileira. E isso pesa no processo. 

RF - Fugindo um pouco da discussão mais conjuntural, gostaríamos de saber em que momento, o senhor, empresário bem sucedido, teve oinsight de começar a se voltar a debater essas questões no plano mais institucional.

JG - Essa história é bastante longa. Eu comecei com conceitos na Gerdau de intercâmbio tecnológico com os japoneses. E já naquela época eles tinham um modelo chamado TQC (Total Quality Control) ou seja, controle de qualidade total. No fundo trata-se de um processo tecnológico tendo como instrumento a estatística em tudo que se faz, para maximizar a eficiência produtiva. Isso depois saiu do campo industrial e entrou na área de serviços. Essa metodologia, que hoje se usa mais em gestão de processos das tecnologias com o campo estatístico, permitiu um conhecimento mundial forte das grandes universidades americanas, em que os japoneses foram perfeccionistas. Eu comecei na década de 1980 a aprender isso com os japoneses. Depois, na década de 1990, surgiu um movimento brasileiro com o ministro Israel Vargas e o professor Vicente Falconi, com a criação do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade. Em 1992 o governador Alceu Colares, do Rio Grande do Sul, me chamou para ajudá-lo na Criação do Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade (PGQP), uma parceria entre o setor público e a iniciativa privada. Fiquei meio desconfiado, mas disse: "tá bom, isso ai eu conheço, e posso ajudar a minha paróquia”. Depois surgiu a Fundação Nacional da Qualidade etc. Interessante que na prática isso me envolveu muito com educação. Eu lembro que os japoneses faziam mil bellings para perder um. E em nossa fábrica fazíamos 300 para perder um. Eu disse: ''vamos melhorar". Eu vi que nossos operários tinham o primário, e os japoneses 12 anos de formação. Nós tínhamos que capacitar nossos operários. É interessante que aprendi isso de forma absolutamente pragmática: a importância da produtividade através da educação. Lembro de uma frase de um executivo meu, que depois, me disse: "Jorge, nós recebemos um peão e convertemos em um cidadão". A verdade é essa. E isso vale para tudo. Então, quando se fala nesse caso de Goiás, que deixou de contar com diretores analfabetos gerencialmente, você vê o resultado. Porque era um pecado o que estavam fazendo com os alunos. Capacita essa pessoa e você vê o que vai ganhar com isso. Educação é tudo. Bom, depois, em 2000, criamos o MBC e ai definimos esses programas voltados as micro e pequenas empresas, do setor público etc. Iniciamos com Minas Gerais, com bons resultados. Veio Pernambuco, com Eduardo Campos, com extremo sucesso. Através do MBC fizemos esses programas durante 10 anos. Fizemos com o governo da presidente Dilma, que já me conhecia desde o Rio Grande do Sul, e me convidou. Fizemos avanços importantes, mas que dentro da dimensão das necessidades, é pequeno, vamos admitir. É preciso que haja uma concepção de revolução que o país precisa fazer. Mas essa é a minha motivação. Temos que gerir melhor para não prejudicar a nação. É um bom motivo, não?

RF - Mas porque esse é um tema tão apaixonante para o senhor, já que os resultados são alcançados quase a conta-gotas?

JG - Não vejo outra solução para o meu país. Existe outra solução melhor? Não tem milagre. Esse desafio que você colocou da pergunta sobre as necessidades sociais eu me conflito sempre. Não podemos estancar o atendimento social. E como é que eu faço? Com crescimento econômico. E como alcançamos o crescimento econômico? Melhorando a gestão, principalmente do setor público. Então, são evidências que eu aprendi na prática, na vida, que me motivam. 

RF - O senhor não acha que estamos vivendo um momento de ruptura e que podemos no futuro aproveitarmos isso como ensinamento?

JG - Concordo. O momento é de ruptura, não há dúvida. Mas não adianta ruptura pela ruptura. Eu tenho esperança que esse momento vai modificar o país. O sofrimento é uma forma de melhorarmos. 

Entrevista de Jorge Gerdau concedida à Revista da FIEC aos jornalistas Ana Maria Xavier e Luiz Henrique Campos / Fotos: Giovani Santos

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